Tudo que penso tem uma origem inescrupulosa e pueril, isso é tudo que me limito a ser.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Isso não

Ferrei com a vadia porque eu quis, sem longas explicações ou motivações morais, tive vontade de fazer e fiz. Se eu fosse rico, nenhuma porra de polícia estaria querendo saber o que aconteceu. Desgraçada, me fode até depois de morta.
Que era piranha eu já sabia, caso contrário não teria juntado as trouxas com ela, mulher que não geme e tem vergonha de batom vermelho não é pra mim, gosto de um tapinha de vez em quando, e se devolver, eu apaixono. Bastou a rapariga roçar a saia sem calcinha por baixo em mim pra eu saber que foderia naquela noite, entalhou a unhas na minhas costas com força e prazer, tinha ela talento pra artes, se sadismo fosse bonito de ver. Me queimou com o cigarro algumas vezes, ele queria deixar marcas na minha pele, assim como queria marcar a minha vida... Acabou que eu que a marquei, com um machado na cabeça, o golpe fez desenhos na parede, não tinha idéia que sangue escorrendo podia ser bonito. Eu teria tido dó de amassar aquele rosto, mas eu estava com pressa, e de qualquer forma, ia ser comida pela terra mesmo.
Vez ou outra me talhava o sangue, mas sua lasanha era divina. Tinha seus defeitos, como as malditas espinhas na bunda, eu odiava aquelas espinhas, mas não posso reclamar, rabo liso eu sempre achei na rua, é barato e não compromete a renda do mês.
Fodas, não deixarei de ser homem se admitir que amei a filha da puta, o palavrão foi pra mostrar virilidade. Aturei as merdas dela, e ela as minhas, eu sou fruto da mesma semente podre que ela. Defeitos todo mundo tem, erros todos comentem, mas chamar meu pau de “tchutchuco’’ eu não podia aceitar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Tempestade oceânica

Se eu sou estranho por nao confiar sem desconfiar, por nao valorizar ninguem acima de mim mesmo, por nao querer uma ''maozinha'' alem das duas que ja tenho. Se por isso, eu acabar sozinho e rancoroso, eu aceito meu destino, mas nao abro mão de me preservar.

Erros sao cometidos por qualquer pessoa, por mais sã e focada que ela seja. A forma como a pessoa errante enfrenta as adversidades que surgem, é que a torna capaz de seguir em frente.

Falo por mim, e nao me interessa o que pensem os demais: Eu sou o deus do meu destino. Não decido as coisas que encontrarei em minhas andanças, isso vai além das minhas capacidades, mas o caminho pelo qual eu passarei, quem decide, sou eu. O Ritmo que terão meus passos, quem decide, sou eu. Diga-me que nao sou capaz e eu terei o prazer de te provar o contrário.

Cada um sabe pelo que passou, e o que é capaz de suportar. Alguns temem encarar seus limites, desbravar seus medos... eu nao tive essa escolha. Meus medos costumam pular na minha frente e berrar enquanto passo por um caminho escuro. Eles conseguem exercer bem sua função: me dão medo. Mas eles nao me impedem, nao me limitam.


Certa vez, vi no filme Peter Pan que Sininho é tão pequena que somente um sentimento por vez pode habitá-la, bom, eu devo ser do mesmo tamanho em algumas ocasiões. As coisas sao intensas na minha forma de ver a vida. Um límpido e calmo lago por fora, as vezes agitado, mas um feroz e perigoso oceano por dentro, capaz de engolir até mesmo os mais poderosos navios do mundo, até mesmo os mais difíceis momentos da vida.

Eu sou o oceano.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Crueldade é confiar

O amor entre um homem e uma mulher é o melhor exemplo possível de como todas as esperanças deste mundo são uma ilusão absurda, e isso porque o amor promete extraordinariamente muito e nos entrega extraordinariamente pouco.

Sei que nao precisa que eu lhe diga que este mundo é um inferno, porém, tente entender que os homens e as mulheres são, ao mesmo tempo, as almas atormentadas dele e os demônios que executam esses mesmos tormentos. E ainda: Ninguem verdadeiramente inteligente aceita o que quer que seja só porque alguma autoridade diz que deve ser assim. Nao aceite a verdade de nada que nao tenha confirmado por conta propria.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Apoteose blindada

Brinco de ser Deus, enquanto o pó oscila entre sujeira e criação, decido se serei forma, desejo, sentimento ou se nada serei, senão o pó. Esquartejo as verdades mundanas em pedaços esmiuçados segundo as vejo. Por mais picadas, rasgadas e mordidas que estejam, elas corrompem meu juízo.
Como Deus, me pergunto: ''Porque diabos meu juízo é corrompido, se eu mesmo criei a possibilidade de corromper?''.
Cômico e sutil me vêm o desespero de perceber a mais extrema e latente solidão, se sou Deus, nao há a quem recorrer em minhas dúvidas e anseios, não há colo pra deitar e lamentar os meus erros e desatinos. Já que sou Deus, o que faço é feito, feito perfeito nascido e criado daquilo que tirei de mim. Não existe erro na criação, sou só eu as infinitas possibilidades da imaginação.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Agora finalmente tudo é branco

O homem está com as costas apoiadas na parede, no lado mais longo de uma pequena sala retangular. Está sentado no chão abraçado aos joelhos dobrados, observando os movimentos dos dedos dos pés nas meias brancas de algodão. Usa blusa e calças brancas de tecido áspero, como brancas são as pare des em que está enclausurado. Encostado à parede diante dele, solidamente preso ao chão, há um leito tubular de metal.

Branco também.

Não há lençóis, mas brancos são o colchão e o travesseiro. E branca é a luz que se derrama do teto, protegida por uma pesada grade cuidadosamente pintada de branco, que parece ser a própria fonte de brancura ofuscante daquela sala.
Aquela luz nao se apaga nunca.

Ergue lentamente a cabeça. Seus olhos verdes olham sem angústia para a única minuscula janela, colocada alto suficiente para ser inatingivel. É o unico relógio que tem à disposição para marcar a passagem do tempo.

Claro e escuro. Branco e preto. Dia e noite.
Nao sabe o por quê, mas o azul do céu não aparece nunca.
Sua solidão não lhe pesa.
Experimenta, aliás, uma espécie de incômodo cada vez que um sinal de mundo lhe chega de fora. De vez em quando, uma janelinha se abre na porta, embaixo, e uma bandeja com travessas de plástico cheias de comida desliza sobre o pavimento. O plástico é branco e a comida tem sempre o mesmo sabor. Não há talheres. Come com os dedos e restitui a bandeja e as travessas quando a janelinha volta a abrir. Recebe em troca um lenço branco e umedecido pra limpar as mãos. Tem que devolvê-lo em seguida.
De vez em quando uma voz lhe diz que fique de pé no centro da sala e estenda os braços pra frente. Observam seus movimentos pelo olho mágico no centro da porta. Quando vêem que está na posição certa, a porta se abre e alguns homens entram, enfiam uma camisa de força em seus braços e apertam bem atrás das costas. Cada vez que é obrigado a usá-la, ele sorri.
Sente que aqueles homem maciços, vestidos de verde, têm medo dele, e nota que tentam de todos os modos evitar seu olhar. Quase sente o cheiro do medo que lhes incute. Contudo, já deveriam saber que o tempo de lutar acabou. Já repetiu isso várias vezes ao homem de óculos que se encontra na sala para onde é levado, o homem que quer saber, que quer entender.
Já disse várias vezes também que não há o que entender.
Só aceitar o que acontece e continuará a acontecer, do mesmo modo como ele aceita impassível ficar trancado em toda aquela brancura até o momento em que começar a fazer parte dela.
Não, sua solidão na lhe pesa.
A única coisa que lhe falta, é a música.
Sabe que jamais lhe permitirão tê-la de novo, portanto, fecha os olhos de quando em quando e consegue imaginá-la. Tocou-a tantas vezes, ouviu-a tantas vezes,
respirou-a tantas vezes que agora, quando procura por ela, ele pode encontrá-la intacta, como era no momento em que entrou nele. As recordações, as que são feitas de imagens e palavras, míseras cores desbotadas e roucos sons envilecidos pela busca de um significado, já não lhe interessam mais. Em sua prisão, a memória só lhe serve agora para reencontrar, como um tesouro escondido, toda a música que possui. É a única herança deixada por aquele homem que um dia se arrogou o direito de “pai”, antes que ele finalmente resolvesse deixar de ser seu filho e lhe retirasse o direito, juntamente com a vida.
Quando se concentra bem, consegue ouvir como se estivesse a seu lado o delizar de uma mão ágil no cabo de uma guitarra elétrica, o som raivoso de um solo que parece uma corrida escadas acima, girando, girando, subindo cada vez mais alto e que parece não ter fim.
Sente o chiado das vassouras nos pratos de uma bateria ou o hálito úmido e quente de um homem que abre caminho com dificuldade no funil tortuoso de um saxofone e, como tal, se transforma numa voz de humana melancolia, a pontada aguda do lamento por alguma coisa bela que se possuía e que se desfez entre sua mãos, corroída pelo tempo.
Pode-se encontrar sentado no meio de uma secção de cordas e vigiar por sobre o ombro o movimento rápido do arco do primeiro violino. Pode se enfiar insuspeito entre as espirais sinuosas de um oboé ou observar os dedos de unhas tratadas que se agitam nervosos entre as cordas de uma harpa, como animais selvagens atrás das grades de uma jaula.
Pode ligar e desligar quando quiser aquela musica que, como todas as coisas imaginadas, é perfeita. Ali dentro tem tudo o que precisa, todo o se, todo seu futuro.
A musica dá e sobra para derrotar a solidão. A musica é a única promessa cumprida, a musica é a única aposta vencida. Disse a alguém, certa vez, que a musica é tudo, que é o inicio e o fim da viagem, que a musica é a própria viagem.
Eles o ouviram, mas não acreditaram. Por outro lado, o que se poderia esperar de quem toca ouve a música, mas não é capaz de respirá-la?

Não, não tem medo algum da solidão.

E depois, não esta sozinho.

Nunca, nem agora.
Ninguém o entendeu até agora e talvez ninguém consiga entendê-lo em seguida. Foi por esse motivo que buscaram tão longe o que estava diante de seus olhos, como todos fazem, como todos sempre fazem. Foi por esse motivo que conseguiu se esconder tanto tempo entre aqueles olhos apressados, exatamente como o negro se esconde entre as cores. Nenhum deles poderia aceitar o brando ofuscante de uma sala como aquela em que se encontra sem gritar.

Mas ele não precisa disso. Não sente necessidade nem de falar.

Apóia a cabeça na parede e fecha os olhos, afasta-se por alguns instantes da brancura daquela sala, não por temor, mas por respeito.
Sabe que pode agüentar a brancura, porque ninguém é tão obscuro por dentro, como ele.



Eu matoGiorgio Faleetti